Os Efeitos do Desdém

Dois psicólogos observam, do canto de um pátio, uma pequena multidão de alunos. Escolhem um, aleatoriamente - "aquele de camiseta verde, pode ser?". Um deles, então, caminha sozinho em direção à cobaia. Ao passar por sua vítima, faz uma de três coisas:

a) Olha nos olhos do sujeito;

b) Olha nos olhos do sujeito e sorri;

c) Olha na direção do sujeito, mas "através" dele, sem contato visual - como se ele fosse invisível.

Após a manobra, o outro psicólogo se aproxima desse indivíduo e pergunta: ""No último minuto, quão desconectado dos outros você se sentiu?"". O aluno responde à pergunta, sem saber que acabou de participar de um experimento psicológico

Essa cena ocorreu inúmeras vezes, há não muito tempo, no campus da Purdue University, em Indiana. Os resultados foram anotados, analisados, e publicados na última edição da Psychological Science. Os pesquisadores queriam saber até que ponto nosso sentimento de inclusão e valor pessoal pode ser afetado pelo comportamento de estranhos. Os resultados foram inequívocos: as pessoas que tiveram contato visual com o primeiro psicólogo (com ou sem sorriso), sentiram-se mais conectadas ao seu ambiente social do que as que foram solenemente ignoradas.

Há centenas de milhares de anos nós vivemos em grupos. Após tanto tempo de convivência grupal, não saberíamos como nos virar sozinhos. Portanto, ser aceito por um grupo é - para nosso cérebro primitivo - uma questão de vida ou morte. A consequência dessa história evolutiva não poderia ser outra: tornamo-nos hipersensíveis a qualquer sinal de pertencimento ou exclusão. Para o bem ou para o mal, queremos ser queridos. Até por aqueles que nem conhecemos.

-EB

26/01/2012

Referência:

E. D. Wesselmann, F. D. Cardoso, S. Slater, K. D. Williams. To be looked at as though air: civil attention matters. Psychological Science, 2012.