Vingança: Um Prato Que Não se Come

(Dudi e Lariz)



No dia 6 de Janeiro deste ano, um homem chamado Alécio dirigiu-se até a loja de calçados de um shopping da minha cidade. Lá entrando, sacou uma arma de sua mochila, e disparou quatro vezes contra uma das vendedoras. Diante de câmeras de segurança e de uma multidão atônita, ele correu até a saída, roubou um carro e fugiu. Jaqueline foi socorrida, mas não suportou os ferimentos. Horas após o ocorrido, veio a público o motivo da execução. Um ano antes, a irmã de Alécio havia sido mortalmente ferida em uma briga com Jaqueline. Alécio, portanto, agia por vingança.

Como eu disse, estes fatos ocorreram no último Janeiro. Mas poderiam também ter acontecido há 100, 500, 1.000 ou 2.000 anos atrás. Afinal, a vingança é um dos fenômenos culturais mais antigos dos quais temos notícia. Os gregos clássicos, por exemplo, chegaram a personificar o espírito da retaliação na figura da deusa Nêmesis. Segundo a mitologia grega, foi ela quem fez Narciso se apaixonar fatalmente por sua própria imagem refletida em uma fonte. E ela o fez para atender às orações de diversas moças que, tendo sido desprezadas pelo belo rapaz, clamavam por justiça.

O mesmo espírito de retaliação personificado por Nêmesis também está presente na Bíblia cristã. Em Naum 1:2 está escrito:

O SENHOR é Deus zeloso e vingador; o SENHOR é vingador e cheio de furor; o SENHOR toma vingança contra os seus adversários, e guarda a ira contra os seus inimigos.

Todavia, embora endosse o papel da vingança, a Bíblia deixa claro que esta deve ser levada a cabo apenas por Deus, e nunca por nós. Assim, em Romanos 12:19, podemos ler:

Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor.

Além de ter sua existência prolongada no tempo, como atestam os textos bíblicos e mitológicos, a vingança sempre se encontrou também estendida no espaço. Revenge, venganza, vengeance e vendetta são palavras que ecoam pelos ares dos mais diversos países quando alguém se sente ofendido ou injustiçado de alguma maneira. Nem o iluminado Oriente se vê livre desta sede universal. Aliás, por lá a retaliação chegou a ser institucionalizada durante o período feudal. Nesta época, os japoneses podiam solicitar autorização oficial dos governantes para praticar uma violenta caçada aos seus agressores – prática conhecida como katakiuchi.

Atualmente, as opiniões sobre a vingança encontram-se divididas. Embora os valores religiosos ensinem a importância do perdão, a psicologia popular acredita que a vingança tem um importante efeito catártico. Acredita-se que uma ofensa não vingada permanece indelevelmente instalada na memória do ofendido. Assim, dizemos que não se pode “levar desaforo para casa”, e que as emoções negativas devem ser “colocadas para fora”. Interessantes também são as metáforas culinárias. A vingança, alega-se, é “doce”, “um prato que se come frio”.

Mas o que a ciência tem a dizer sobre a retaliação? É verdade que as feridas se cicatrizam mais rapidamente após uma saborosa vingança? É verdade que as ofensas não vingadas permanecem martelando as paredes de nossa memória até o fim de nossos dias?

Para responder estas perguntas, pesquisadores das universidades de Harvard, Virginia e Colgate resolveram conduzir um inusitado experimento. Inicialmente, estudantes foram recrutados para participar de um jogo. Neste jogo, cada estudante se unia a outros três para formar uma equipe. A cada rodada, cada membro da equipe deveria contribuir com certa quantidade de dinheiro para fazer um investimento. O investimento rendia 40% de lucro, que era dividido igualmente entre os participantes, independentemente da contribuição de cada um. Em seguida, uma nova rodada de investimento se iniciava. Um detalhe: pelas regras do jogo, os indivíduos nunca sabiam a quantia que seus parceiros disponibilizavam. O segredo do experimento é que cada grupo tinha um participante “plantado” pelos pesquisadores. Este participante trapaceava consistentemente, encorajando os outros membros a investirem cada vez mais, enquanto ele mesmo nunca oferecia a sua contribuição. Ao final do jogo, os participantes do experimento foram informados sobre a trapaça do colega de equipe, e divididos em dois grupos. Ao primeiro grupo era oferecida a oportunidade da vingança, que consistia em retirar do trapaceiro o dinheiro que foi ganho injustamente. Ao segundo grupo a vingança não era permitida. Por fim, todos os participantes deveriam responder um teste que mensurava o seu estado emocional.

Os resultados mostraram que a vingança é, na realidade, um prato bem indigesto. Os indivíduos que se vingaram do trapaceiro relataram um estado emocional significativamente pior do que os que não se vingaram. Assim, a retaliação acabou agindo no sentido contrário, funcionando para amplificar a raiva e a indignação.

Outro achado interessante foi que, a despeito dos efeitos prejudiciais da vingança, os participantes do estudo pareciam crer firmemente nos seus benefícios. Deste modo, aqueles que retaliaram disseram que estariam ainda mais irritados se a oportunidade de retaliação não tivesse sido oferecida – o que, como demonstraram os dados, não é verdade. De maneira semelhante, os indivíduos que não tiveram a oportunidade de se vingar disseram que estariam mais felizes caso a oportunidade tivesse sido oferecida – o que também se mostrou uma crença equivocada.

Carlsmith, um dos pesquisadores, disse que "em vez de propiciar uma solução, a vingança faz o oposto, mantendo a ferida fresca e aberta". Os cientistas também hipotetizaram que, quando não temos a oportunidade da vingança, somos obrigados a encontrar maneiras mais construtivas, elevadas e eficazes de elaborar as memórias desagradáveis que carregamos.

Assim, a ciência recomenda que encontremos outros caminhos para superar as agressões que nos vitimaram. Do ponto de vista psicológico, oferecer a outra face pode ser mesmo algo sensato e produtivo a se fazer. Ao que parece, Josh Billings estava certo: não existe vingança mais completa do que o perdão.

 

Carlsmith, K. M.; Wilson, T. D.; & Gilbert, D. T. (2008). The paradoxical consequences of revenge. Journal of Personality and Social Psychology, 95, 1316-1324.

 

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